|
Arena Metal – Caros
amigos da Sanctifier é um prazer entrevistar vocês e devo completar dizendo que
é ótimo ver a volta da banda neste ano de 2011. Mas pra começar quero saber
como foi voltar a destruir nos palcos em um grande evento que é o DOSOL? Rogério Mendes - Não
estava previsto tocarmos em 2011. Queríamos apenas nos dedicar aos ensaios e às
novas composições. Levamos um tempo para compor a formação que, apesar de
experiente, estava há muito tempo sem ensaiar e tocar ao vivo. Acontece que o
Dosol é o maior evento de musica
independente do Rio Grande do Norte e ainda oferece uma estrutura razoável e
certa visibilidade, o que para nós, que estávamos voltando as ativdades, seria
interessante. Além das questões práticas houve também o reconhecimento trabalho
do Sanctifier ao sermos chamados para tocar. Banda tem mais de 20 anos e não
havia sido chamada para tocar no festival apesar de seus 10 anos de eistência.
Foi como voltar em grande estilo, “em casa”, diante de nosso público-primeiro;
num grande evento diante das pessoas que nos viram crescer como personalidade e
músicos incluindo-se o pessoal de Recife, com quem temos uma grande ligação.
Fazemos questão de mencionar nominalmente, como uma forma de agradecimento
àqueles que compareceram ao Festival para também nos ver: Daniela e Wilfred
Gadelha (Cruor); Alcides Burn, Miguel Dantione (Inner Demons Rise), Paulo André
(Cachorros); Washington Pedro (The Ax), Marco Antonio e Jean Marcel (Decomposed
God) além de outros amigos. O show foi muito legal. Tocamos seis musicas, sendo
duas do “Awaked By Impurity Rites (2004/Dying Music) e quatro do “Daemoncraft”.
A recepção foi muito boa. Da formação do “Awaked..”restou apenas o Alexandre
Emerson. Apesar da drástica mudança o publico pareceu receber bem o “Novo
Sanctifier”, o que nos deixa felizes e estimulados para apresentar novos
projetos. A resposta positiva veio de uma geração nova e antiga de headbangers
e bandas. O que mais valorizou a nossa volta às atividades no Dosol é que veio
de um público bem heterogêneo. Após alguns anos e retomando às atividades a
sensação e a responsabilidade é grande mas está sendo tranqüilo administrar. O
que as pessoas precisam entender é que não esperem do Sanctifier hoje o que foi
ele em outros tempos.
Arena Metal – O
momento é bastante interessante pra banda, 25 anos de banda, e o que vem por ai
pra essa comemoração? Rogério Mendes - O
CD “Daemoncraft” foi gravado e neste momento está sendo mixado e masterizado no
Estúdio Flames (RJ), por Victor Fabio (Ex-Sanctifier; Ex-EYH; ex-Lord
Blasphemate; ex-Terrorzone) e que recentemente produziu o Nervochaos. O CD está
com previsão de saída para o primeiro semestre com programação visual de
Alcides Burn. Ele deve sair ainda no primeiro semestre, via Dying Music, a
depender da Fonográfica. Estamos pensando em lançar um EP com algumas músicas
em português e um DVD. Também queremos fazer bons shows.
Arena Metal – Já que
tocamos no assunto “Daemoncraft”. Qual a temática que abordará o mesmo? Rogério Mendes - A
temática do “Daemoncraft” será uma espécie de continuidade do assunto abordado
no “Awake by Impurity Rites”. Quem está a frente da escrita das letras é o
Alexandre Emerson, especialista no assunto, juntamente com o americano Tannes
Ahrens. O foco é o estudo mito de Cthulhu a partir da livre interpretação da
obra de H.P. Lovecraft que sugere o “mito” de Chutulhu como fronteira/resultado
da relação humana com o “horror”. O horror como metáfora do que representa a
natureza subjetiva das pessoas por meio da intuição, do instinto e do
desconhecimento do Universo oculto e ex(s)otérico que permeia a relação do
corpo e da alma. O horror que gera ficções e realidades e ao mesmo tempo une
pessoas a dimensões abstratas numa demonstração de como somos complexos e
desconhecedores do que pode significar nós mesmos e a vida. É por essa força
psíquica que nos tornamos anjos e/ou demônios de nós mesmos e afirmarmos um
sentido de realidade entre várias possibildades.
|
Trata-se de uma temática que
se relaciona com o poder da imaginação que é responsável por tudo o que o homem
materializa, por meio do que ele mesmo desconhece por meio das forças ocultas
da mente. O horror é uma criação pessoal que nos minimiza, nos distancia, nos
torna ausentes e ao mesmo tempo próximos a uma dimensão “negativa”, nossa, que
evitamos.
|

|
Por quê? Essa é a grande questão que motiva as letras e o nosso
questionamento. O horror somos nós mesmos; algo que existe apenas a partir de
nós situando-nos mínimos entre o encantamento e a dúvida.
Arena Metal – Esse CD
e DVD vindouro serão vendidos separadamente ou vocês têm uma tática melhor pra
esse marketing? Rogério Mendes - Serão
vendidos separadamente. Primeiro, virá o CD. A Dying Music já sinalizou que
poderá ser confeccionado e distribuído um pôster e será também confeccionada
uma camiseta, em policromia, em tiragem limitada e especial, com a arte do CD.
Depois, pensaremos um DVD com shows, fotos, entrevistas, making off além de
depoimentos de pessoas e bandas que curtem e/ou acompanharam a carreira da
banda. Há o desejo de produzirmos um clip que poderá ser feito pelo Nicolas
Gomes (Violator, “Futurephobia”). Mas isso não é certeza e apesar da
possibilidade real ainda são devaneios. Marketing para nós é tocar e compor. Em
breve vocês terão contato com nossas composições e queremos tocar! Achamos que
essa é a melhor estratégia de marketing: seduzir o público e para isso a
receita é simples: escrever boas composições e apresentá-las bem.
Arena Metal – Vocês,
como eu, vivenciaram a era demo tape e vinilzão, mídias que bandas iniciantes
usavam e a outra que bandas mais profissionais usavam, resumindo pirataria
quase não existia, porém hoje o novo público usa mesmo é o meio internet,
consumindo bastante o download. Qual a estratégia que a banda junto a Dying
Music fará para poder vender ao target? Existe a possibilidade de uma edição
especial vinil? Rogério Mendes - Vemos
essa mudança com bons olhos porque exige-se que se desenvolva outras
habilidades estratégicas para desenvolver um trabalho. Desenvolver-se
intelectualmente é sempre importante. Não existem mais a gravadora que decide:
o que existem agora são parcerias, o que é importante porque evidencia-se a
liberdade criativa das bandas. O CD como formato material hoje representa algo
simbólico, quase um souvenir. É indiscutível que o formato mp3 é mais ágil,
mais prático para trabalhar, divulgar e vender em razão da realidade virtual o
que não se quer dizer que o CD não tenha um papel relevante porque nele estão
contidas informações importantes como as letras, ficha técnica e a
representação artística do registro, o que é muito significativo porque são
idéias. Ao contrario do que muitos pensam, a nova realidade não é excludente, e
sim, inclusiva: tem-se alternativas que, se bem administradas, podem ser uma
opção exitosa na apresentação do trabalho. Deve-se investir em todas as alternativas
possíveis porque o público é fragmentado e possui um perfil muito diversificado
e temos que chegar até eles. O que não
deve ser esquecido é a qualidade técnica sonora e da apresentação do resultado
a ser apresentado. Esmero é fundamental: basta colocar-se na posição de
público, não tem segredo. De nada adianta investir em estratégias e
apresentação se o resultado final é ruim. Na Europa e EUA é cada vez mais comum
investir nas tiragens dos CDs faixas-bônus, vídeos, invólucros especiais,
brindes aliados a um preço justo. O que é muito legal.
|
Pode-se fazer muita
coisa. O que é complicado é que quer-se muito lucrar no Brasil mas muitas vezes
não se quer apresentar contrapartidas para satisfazer as pessoas. No caso da
Dying Music a edição do Daemoncraft virá com um pôster e está sendo preaprada
uma tiragem limitada e especial de um camiseta exclusiva em alta qualidade.
Acho que não sairá uma edição nacional em vinil, mas há a possibilidade de sair
fora, mas nada é certo. Vamos buscar soluções criativas para difundir a banda.
|

|
Arena Metal – Bem, a
Sanctifier surgiu assim que o Heavy Metal estava em seu advento aqui no
nordeste. Vocês acreditam que antes fosse encarado de forma menos profissional? Rogério Mendes - Lidar
com “musica pesada” naquela época, independente de gênero, era algo complicado
porque ainda não havia a cultura e o reconhecimento da importância da musica
independente no Brasil. Estávamos à margem. Não havia condições para
desenvolvimento para o heavy metal. Não haviam estúdios, lojas, gravadoras ou
público suficiente para garantir as bandas. Tudo acontecia de maneira muito
gradual. As dificuldades antes eram muitas mas existia paixão e por vezes
talento. Hoje as coisas são diferentes. Hoje heavy metal é uma cultura, uma
economia e há uma indústria por vezes perversa atuando. Há sempre empresários
que, como sempre, viabilizam seus interesses e, no caso específico,
predileções, filtrando uma participação mais democrática das bandas e públicos
na mídia, nos festivais, o que muitas vezes obstrui novos nomes. Eu apontaria isso como falta de
profissionalismo. O problema é que quando se fala em falta de profissionalismo
o que se entende quase sempre pelos “metalers” é a limitação de estrutura para
shows. A compreensão do conceito de underground é estranho e prejudica a
profissionalização das bandas. As bandas se sujeitam a tocar em qualquer
estrutura e por isso os produtores continuam, quase sempre, oferecendo condições
insuficientes para os shows e estranhando quando as bandas fazem algumas
reivindicações que se relacionam, quase sempre, diga-se de passagem, a
qualidade da infra-estrutura dos eventos. Uma banda quando vai tocar ela é
atração, responsável por muitos estarem prestigiando o evento. Ensaiam duro,
consomem tempo compondo, ensaiando e investindo e não têm o reconhecimento dos
produtores. Muitas vezes até para as bandas conseguirem água para ser consumida
nos shows é uma dificuldade. Argumenta-se muitas vezes: “Underground é isso
mesmo!”. Não sei se é. Por conta disso a idéia de profissionalismo que se tem é
ficar calado diante de absurdos que não são normais e chegar pontualmente aos
locais de apresentação. Isso pode acabar se o público começar a apoiar as bandas
locais. Consumir, prioritariamente, o merchandising das bandas locais e
freqüentar os shows dessas bandas, criando novos nichos de público e
sustentabilidade. As bandas também precisam parar de reclamar e trabalhar
investindo em tecnologia, aprimoramento da técnico etc. Para cada época existe
uma noção de profissionalismo. Tem-se que fazer uma leitura do mundo de hoje
para pensar uma maneira de atuar direitos e deveres. Achamos que deve haver um
integração orquestrada, harmônica para que se mude uma mentalidade caduca e que
se arrasta até os dias de hoje prejudicando a maturidade do que se convencionou
chamar “cena underground”.
Arena Metal –
Confesso que muitos produtores de eventos underground usam esse argumento, e
privilegiam bandas extra estadual ou estrangeiras, qual sua crítica quando uma
banda headline tocar na mesma aparelhagem de uma banda prata da casa, porém
quando a prata da casa vai tocar o som fica uma bosta? Rogério Mendes - Não
haveria desconforto se houvesse um maior investimento em colocar uma boa
aparelhagem para qualquer banda que subisse ao palco e também houvesse bons
engenheiros de som na cidade. Não temos bons técnicos. Quase sempre eles são
intuitivos e isso não importa porque não é seguro, não é profissional, não
basta. Por outro lado muitas bandas locais, e que muitas vezes são
“estrangeiras” quando saem do estado, tocam por qualquer pedaço de pizza, em
qualquer lugar, de qualquer forma... logo, toca-se em qualquer som. Muitos
produtores sabem disso e quando a banda vai discutir com a produção as
condições técnicas mínimas dos shows a reação é quase sempre as piores
possíveis. Quase sempre execra-se a banda como se os produtores estivessem
fazendo um favor as bandas. A solução é modificar a cultura. Se o público
prestigiar as bandas consumindo shows e os produtos (CD, camisetas etc) e
apoiando as bandas quando a aparelhagem é insuficiente as coisas podem mudar. Em
alguns casos os produtores não podem e muitas vezes não querem fazer
investimentos porque diminuiria a margem de lucro. O curioso é que muitas vezes
eles têm bandas mas fazem dois discursos diferentes: quando respondem como
banda exigem e acham válido o que estou escrevendo mas quando respondem como
produtores o discurso é diferente. Não é uma regra, há exceções, mas pode-se
observar que não estou exagerando.
|

|
Outra solução é as próprias bandas
responsabilizarem-se por suas produções porque elas teriam o lucro que lhes
seria de direito além de terem a disposição a técnica necessária para
desenvolverem-se sem falar que seria uma grande oportunidade para aprender
sobre produção. Precisamos ter mais auto-estima e independência para as
carreiras decolarem. Há muita gente aproveitando-se da desinformação e
ingenuidade das bandas e pessoas. Não adianta apenas falar. Rock, metal é
atitude! Falta atitude, consciência de muita gente.
|
Arena Metal – Se não
me falha a memória, depois do “Awaked by Impurity Rites”, vocês só fizeram
split, que foi um 3 way, em 2005. Por que não lançaram mais nada oficial? Rogério Mendes - O
último lançamento da banda foi em 2007. Foi um split EP 10”em vinil com o
Headhunter d.c intitulado “...In Deathmetallic Brotherhood...” lançado
gravadora francesa Legion Of Death. A idéia era cada banda gravar três musicas:
uma musica inédita, uma faixa ao vivo e
um cover. Tocamos “Am I Crazy?”, do
Headhunter d.c, do “Born, Suffer, Die” e ele tocaram “The Cicle of the Entity”,
do “Awaked By Impurity Rites”. Depois sofremos algumas baixas na formação que impossibilitaram
a continuidade dos trabalhos. O tempo passou e necessitou-se de uma nova
formação. Reunimo-nos há 9 meses e resultado desse novo tempo foi o
“Daemoncraft”. Não lançamos nada antes porque a banda resolveu dar uma parada
por tempo indeterminado só voltando agora e com um novo trabalho, o
“Daemoncraft”.
Arena Metal – Como
vocês mesmo disseram o Burn esteve por ai, pelo RN, e atualmente o mesmo, junto
a outro produtor vem promovendo alguns eventos pelo Recife. A pergunta é bem
direta: Há a possibilidade de vermos a SANCTIFIER em Recife ainda no primeiro
semestre/2012? Rogério Mendes - Alcides
Burn, antes de ser produtor, é um amigo pessoal há pelo menos 15 anos. Foi
Alcides Burn quem fez a capa do cd
“Awaked By Impurity Rites”, eleita a melhor capa de nacional na época
pela Roadie Crew. Somos próximos.
|
Por questões de agenda ele não participou do
“Daemoncraft”. Se ele convocar iremos pra Recife na hora! Temos uma ligação
muito grande com a cidade: muitos amigos na cidade. Eu nasci e vivi por 33 anos
na cidade e fui membro-fundador do Infected, Elizabethan Walpurga além de ter
integrado o Decomposed God. A primeira demo-tape do Sanctifier, que consagrou
nacional e internacionalmente a banda, a “Ad Perpetuam Rei Memoriam” (1992),
foi gravada em Recife. Estamos finalizando o repertório do CD e queremos, sim,
muito, tocar em Recife, sempre!
|

|
Arena Metal – E como
está a cena daí do Rio Grande do Norte? Rogério Mendes - O
Rio Grande do Norte é um estado em que sempre teve uma leva de bandas muito
interessantes e continua tendo. Há o Expose Your Hate, que está gravando o
próximo CD; o pessoal do Comando Etílico, que são muito bons; o pessoal do
Kataphero, que está gravando material novo e têm um som muito poderoso; o
pessoal do Deadly Fate, sempre muito competentes e do Primordium. Também há os
projetos dos amigos como o Tesla, de Adriano Sabino, baixista do Sanctifier.
Essa semana, por exemplo, recebi alguns arquivos do projeto do Flávio França,
guitarrista do EYH, chamado “Son of a
Witch”, que é muito bacana. O Lord Blasphemate por ressurgir a qualquer
momento! Há pelo menos 5 bares onde se pode ouvir e tocar rock de uma maneira geral,
incluindo-se metal além de espaços legais para fazer shows como o Cultura Club
e o Espaço Dosol. O pessoal de Natal é antenado com o que está acontecendo no
Mundo alem de serem competentes, focados e empreendedores no que se prestam a
fazer. Têm um perfil ascendente e promissor. Está sendo bacana perceber esse
movimento.
Arena Metal – Por
fim, gostaria de agradecer o tempo cedido, a honra de nos enviar músicas para
nosso programa Insana Harmonia, também no suporte em divulgá-lo. Então por este
móvito gostaria que vocês solicitassem 4 músicas para elaborarmos um bloco e
espero vê-los em Pernambuco para fazermos um bate papo para nosso programa. Rogério Mendes - Nós
é que agradecemos o espaço, Hugo. Iniciativas como o programa Insana Harmonia
são raras e essenciais, por investirem não apenas na divulgação das bandas mas
também nas idéias. Pensar para modificar o que é insuficiente é importante. Na
organização underground existem muitas coisas que precisam ser repensadas e
isso só pode acontecer a partir da difusão de opiniões e ações das bandas, dos
responsáveis pela imprensa alternativa, produtores. Acreditamos nisso! Não é um trabalho fácil porque muitas vezes
não somos compreendidos, nem se tem recursos suficientes e muito menos tempos
mas, mesmo assim, insistimos e damos nossa contribuição. Queremos
parabenizá-los pelo apoio às bandas locais e regionais (Nordeste). O Sanctifier
agradece e pode contar sempre conosco, ok? Esperamos ir o quanto antes tocar em
Recife e fazermos um bate-papo para o programa. Quatro músicas para um bloco no
programa? Quanto privilégio!!!!! Vamos escolher músicas de bandas de
Pernambuco, ok? 1) “Whitechapel”, do Cruor; 2) “The Crematorium Waits for us”,
do The Ax; 3) “Dawn of Celestial Shadows”, do Decomposed God; 4) “Mina”, do
Inner Demons Rise.
myspace
(Por Hugo Veikon)
|